Quem é o professor universitário que distribui este cartão nos semáforos de SP


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Jair da Silva, paulistano, casado, 61 anos. Foi com ele que a minha mulher Elisa topou dias atrás em um semáforo do Largo da Batata, em Pinheiros, São Paulo. Ela, de carro. Ele, a pé, terno azul marinho e camisa branca, sem gravata, passando de veículo em veículo, educadamente, deixando o cartão que ilustra a foto acima.

Ao lê-lo, a surpresa: Jair não só havia criado uma forma inovadora de se apresentar diante da crise, como trazia consigo uma mensagem poderosa: no Brasil de 2016, a maioria já não quer status, cargos ou altos salários. Deseja apenas uma chance, uma oportunidade para mostrar tudo o que aprendeu e, quem sabe, conquistar um emprego.

Jair foi encarregado de setor no Grupo Pão de Açúcar, coordenador de Ensino na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e analista de Implantação e Processos no Banco Panamericano.

Lecionou durante 20 anos no Ensino Superior: Universidade de Guarulhos, Faculdade Ítalo Brasileira, FASP-Ceinter, Claretianas, Carlos Drummond de Andrade. E também nos colégios Paralelo, Radial, Vila Maria e cursos livres.

Por razões financeiras, teve de parar uma pós e um mestrado que, com fé, espera retomar.

E o cartão?

Decidi saber mais e escrevi ao Jair, que gentilmente me deu esse depoimento repleto de insights e, acima de tudo, esperança:

“Estou em um momento positivo em todos os aspectos, mesmo desempregado. Desânimo é uma ‘coisa’ que nunca me pegou. A ideia dos cartões surgiu com a necessidade de fazer algo diferente. Eu já havia percorrido todo o caminho normal (agências, sites, e-mails, network, etc.).

Foi quando recebi um e-mail marketing de uma empresa que oferecia cartão de visita pessoal ou empresarial, criado no próprio site, por R$ 25,00 o milhar.

Coloquei um trevo da sorte, meus contatos e no quê poderia servir.

A partir daí, surgiu a ideia de distribuir os mesmos nos semáforos.

Até hoje, não conheci ninguém que fez isto, espero que dê certo para mim e, para quem quiser fazer o mesmo, desejo boa sorte.

Comecei a distribuir os cartões em 29 de agosto, uma segunda-feira, no Largo da Batata, em Pinheiros, São Paulo, simplesmente por achar que ali passavam muitos caros. É uma zona mais ou menos privilegiada, onde eu acreditava que passariam pessoas com maior poder de decisão; diretores, gestores…

Com o tempo, verifiquei que o local era fraco. Fui então para Av. Faria Lima, altura do nº 1306, onde o semáforo demorava mais para fechar, assim eu conseguia entregar mais cartões. No total, foram 250 entregues em três horas.

Até agora, um rapaz chamado Hercules Pereira recebeu meu cartão em um Uber e divulgou no Facebook. Recebi muitos e-mails de pessoas desconhecidas que não acreditavam que eu estava fazendo este tipo de divulgação. Umas perguntaram se eu era real, outras pediram meu currículo para enviar ao RH, outras ainda me passaram contatos para eu enviar o CV.

Uma grande parte entrou em contato via celular e WhatsApp. Foram mais de 70 pessoas que fizeram a proposta de MMN (Marketing Multi Nível), fui até em uma reunião, apesar de saber o que era, apenas para conhecer e tirar a dúvida.

Houve uma menina de 16 anos que mandou um WhatsApp elogiando minha coragem. Me contou que está se preparando para entrar no mercado de trabalho, disse que ficou emocionada com a minha decisão, minha luta. No final da mensagem, revelou que, se tivesse uma empresa, iria me contratar. Fiquei muito lisonjeado com a atitude dela, percebi sinceridade nas palavras.

Uma coach em Recrutamento e Seleção prometeu me dar uma sessão grátis de técnicas de entrevistas, pois viu meu cartão e resolveu ajudar.

Nada de concreto quanto ao emprego, mas vai dar certo com certeza.

Quando entrego o cartão ao motorista, peço licença e agradeço, desejando um excelente dia. No geral, as pessoas não falam nada, não dá tempo, a maioria recebe o cartão e coloca no console ou painel do carro. Ninguém ironiza, mas as pessoas andam muito assustadas com tantos assaltos. Não abrem o vidro, olham para o outro lado, fingem que estão falando ao celular.

Na minha opinião, o governo tem de fazer um plano de recuperação da economia urgente, antes do final do ano, para restaurar o comércio.

Em alguns processos dos quais participei, cheguei a ouvir que a empresa tem política de contratação até 38-40 anos. Ouvi depois que experiência após os 50-55 anos não vale nada. Acham que estou/estamos velhos demais – uma pena, pois temos muito a oferecer em termos de conhecimento.

Minha mensagem a quem se encontra na mesma situação é: nunca desista. Tenha força de vontade e não fique ao lado de pessoas que valorizam a derrota. Procure pessoas alegres, felizes, de bem com a vida.

Ainda não terminei minha batalha, tenho alguns semáforos para distribuir, e só vou parar quando alcançar meu objetivo. O próximo passo é entregar cartões em restaurantes na hora do almoço – antes pedirei autorização ao gerente para não atrapalhar o pessoal.

Se possível, quero aproveitar esse espaço para agradecer a todas as pessoas que entraram em contato comigo para ajudar – pessoas que nunca vi e que talvez nunca chegarei a conhecer pessoalmente.

Elas me mostram que nada está perdido, que ainda existe gente que procura ajudar o outro. E isto é gratificante.”

Grande Jair, obrigado e sucesso!

****

Marc Tawil

Jornalista, radialista e escritor. Pertenceu às redações do jornal Resenha Judaica, Rádio Jovem Pan AM, Jornal da Tarde (Grupo Estado) e Rádio BandNews FM. Publicou os livros Trânsito Assassino (Ed. Terceiro Nome), Haja Saco, o Livro (Ed. Multifoco) e editou a biografia do advogado Abrão Lowenthal (Ed. Quest). Tem MBA em Gestão Empresarial pela FGV e cursa MBA de Marketing pela USP. Dirige a Tawil Comunicação. Textos semanais no Pulse LinkedIn. Leia-os aqui.

 

 

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