OS QUE SE ACHAM


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Os que se acham…

Dentro da tradição norte-americana, a turma de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos estava reunida para a formatura ao lado dos pais orgulhosos, exibindo chapéus típicos e becas coloridas. Porém, o discurso do professor David McCullough Jr foi uma ducha fria naquela manhã ensolarada. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse o professor abrindo a cerimônia. “Os adultos mimam vocês, beijam, confortam, ensinam, treinam, ouvem, encorajam. Mas não se iludam pensando serem especiais – porque vocês não são”. Ao longo do incômodo discurso o mestre enfatizou: “Não fiquem aí se achando; na vida é muito diferente”.

Alguns se remexeram nas cadeiras sobre o gramado; outros torceram o nariz, contrariados. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como joias raras”, disse ele. “Mas, para se darem bem, eles precisam saber que agora estão todos no mesmo patamar, que nenhum é mais importante que o outro”. (…)

Assim, o século XXI é o berço esplêndido da turma do “eu me acho”. Se acham os melhores alunos … Nota ruim? A culpa é do professor. Se acham os mais competentes no trabalho. Se recebem críticas ou não são promovidos, é perseguição do chefe. Se acham merecedores de elogios e reconhecimento diário, caso contrário, é porque a empresa encontra-se aquém de sua genialidade. (…)

Tenho visto muitos efeitos dessa estranha educação por aí. Ela, às vezes, materializa-se no dia a dia, na falta de respeito, no “quem é você para impor-me regras, Dona Sociedade? Eu sou demais!” Também despontam outros tipos de atitudes. Diante de um obstáculo real e palpável – aquelas inevitáveis pedras do caminho –, alguns jovens entram em pânico. Ao invés de aceitarem seus limites, aprenderem com seus erros e tirar proveito das críticas, paralisam-se. Alguns fogem, voltam à zona de conforto; querem colo e carinho. Já outro, desesperado, esbofeteia o empecilho com a força dos bíceps treinados nas academias. Ou pior: pega uma arma e dispara contra quem teve a petulância de o contrariar – como a ex-mulher que decidiu pôr fim ao casamento infeliz, por exemplo.

do escritor Fernando Fabbrini

Fonte: Jornal O TEMPO 

 

 

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