Tchau, Symbian Foundation (e o Symbian vai pra Nokia)


Nokia N8: review

Publicado por Henrique Martin em 09/11/2010 – 16:40Comentários (6)

Em 2007, a Nokia colocou no mercado seu melhor celular até então, o N95: hardware impecável, câmera excelente, software ainda básico, que poderia evoluir.

Se a turma de Espoo tivesse tido um pouco mais de visão e lançasse algo similar ao N8 pouco tempo depois, o mundo dos smartphones seria bem diferente. Mas não foi, Android e iOS cresceram sobre a área da Nokia (ainda líder no mercado de espertofones, vale lembrar).

O recém-lançado N8 é um aparelho que continua com hardware impecável e câmera excelente, só que com um sistema operacional voltado ao próprio telefone, e não à internet, como seus concorrentes (Android, iOS), que chegaram mais tarde à festa e roubaram a cena. Facilidade de desenvolvimento de aplicativos, divisão fácil e garantida de receitas (no caso da Apple) e grande adoção de inúmeros fabricantes (no Android, o que acabou gerando a temida fragmentação da plataforma) ajudaram a Nokia a perder espaço.

O sistema operacional Symbian evoluiu, com certeza, e nessa nova encarnação (ˆ3) é um salto enorme em relação ao já apresentado nos aparelhos touchscreen da Nokia (primeiro no 5800 e, principalmente, o N97). Faz muito que os outros (iOS, Android) fazem? Sem dúvida, mas com mais passos envolvidos no processo. Adiantando um pouco as coisas: eu compraria um N8? Pelo hardware, sim, por conta da incrível câmera de 12 megapixels e da conectividade HDMI. Pelo software, não.

No N8, é possível fazer quase tudo (baixar apps, email, internet, redes sociais, compartilhar dados, tethering, vídeos, fotos) que um Android ou iPhone fazem. Só que dá mais trabalho. Por enquanto, continuo com meu velho e bom N900, com um sistema operacional mais moderno e voltado à rede, ao contrário do Symbian.

 

Vale lembrar que o N97 e seus inúmeros problemas de software, somados a um russo falastrão, fizeram do N8 o projeto secreto mais secreto da Nokia, pelo menos para a mídia. Foi anunciado em abril, primeiros protótipos foram mostrados em maio e só conseguimos ver o bicho de perto mesmo em setembro, na IFA em Berlim. Vamos ao que interessa.

1) Especificações:

Tela capacitiva de 3,5″ (640 x 360) AMOLED, saída HDMI micro, rádio FM, 3G, GPS, Wi-Fi, Bluetooth 2.1, carregamento USB, acelerômetro, sensor de proximidade, câmera de 12 megapixels com lentes Carl Zeiss e flash Xenon, vídeos em 720p, som Dolby Digital, processador de 680 MHz, 256 MB de RAM, 512 MB de ROM, 16 GB de armazenamento interno + slot microSD.

2) Tela, interface e texto:

A tela capacitiva do N8 é a melhor que a Nokia já fez. Responde rápido, é multitoque e desliza tão bem quanto a do iPhone (apesar de a Apple ainda ter a melhor tela touchscreen do mercado). E aí o software desanda tudo: o teclado com o aparelho na vertical continua numérico (velho e bom T9 quebra o galho para digitar textos rápidos).

Não existe uma opção de teclado QWERTY completo com o aparelho nessa posição, só quando vira para a horizontal. Já existe Swype para Symbianˆ3 (até então algo exclusivo para Android), mas a versão disponível só funciona também com o teclado na horizontal. Desde 2007 o iPhone tem um teclado na vertical, e a única alternativa (enquanto escrevo este texto) nesse sentido está presente em uma versão de testes do Gravity, o melhor cliente para Twitter para Symbian.

Para quem está acostumado à bela interface do N900, sem botões e com toques para entrar e sair de menus com a maior facilidade, as opções do N8 são um tanto frustrantes: os botões de menu são, na maioria dos casos, desnecessários – e é sempre preciso tocar em “cancelar” para anular a operação e voltar ao menu anterior (em caso de cliques errados, o que foi, no meu caso, algo comum).

O já conhecido padrão de tocar no ícone do aplicativo e movê-lo ao lixo/arrastar para reordenar/inserir novo atalho, comum ao N900, iPhones e Androids, continua a não existir no N8. É possível colocar ícones na tela principal, em muitos passos: tocar na tela | aguardar entrar a opção Editar tela inicial | tocar no grupo de ícones (ordenados de quatro em quatro) e selecionar Configurações | editar atalhos, sempre nos grupos de quatro em quatro. Não é impossível, mas não é simples. Explique isso para o dono de um iPhone que nunca mexeu num Nokia e ele irá dar risada.

Um ponto interessante da interface das telas iniciais, pelo menos: arraste e solte entre telas (máximo de três) ou toque no botão central na barra de menu inferior. As opções de widgets online continuam lá, e existem mais opções para organizar e deixar do seu jeito. Diferente do Android, capturar screenshots no N8 continua simples como sempre foi (via aplicativo ScreenSnap).

3) Telefone

O N8 tem a melhor qualidade de ligações em locais abertos e fechados entre os telefones recentes que testei neste Zumo. A cada ligação diferente perguntei ao meu interlocutor o que ele achava da qualidade de som, e era incrivelmente boa, nítida e clara, sem queda de sinal ou ruídos.

Um exemplo de recepção ruim (uso a rede da Tim) é a sala de casa, quase sempre sem sinal (moro em um sobrado, estou no térreo). Fiz diversas ligações desse local sem ter que correr pra outro ambiente (algo comum no N900 e no Motorola Dext). Ponto pra Nokia aqui.

4) Internet, redes sociais e aplicativos
O browser do N8 continua a ser a velha e boa variante do WebKit usado já em outros aparelhos da fabricante. Roda Flash (Lite, acredito), renderiza páginas bem, continua com um gerenciamento de favoritos e uma interface bastante poluída (menus, ícones). Falta, entretanto, uma maior integração do navegador com outros aplicativos como é comum no iOS e Android. Não quero clicar num link do Twitter e ter que escolher abrir o browser (entendo aqui que a culpa é do desenvolvedor do aplicativo também). Multitoque na tela, com zoom, é possível. Multitask entre aplicativos, também.

O N8 vem com o aplicativo Social instalado. Dá acesso a Twitter e Facebook de maneira simples e direta (falta ao Facebook um método de notificações, talvez o recurso mais importante do Facebook nas suas versões móveis). Um fato curioso, que espero que seja resolvido em uma atualização futura de software: o N8 não tem opção de upload de imagens para o Flickr, só para Facebook e Twitter. E, ao compartilhar uma imagem direto da galeria de fotos, o app Social envia direto, sem opção de colocar uma legenda (algo que só é possível direto pelo próprio Social).

Ainda na série “estranhas escolhas” no N8, o aparelho vem sem a loja Ovi instalada. Já imaginou o Android sem o Market ou o iOS sem a App Store? A Nokia não informa o número de aplicativos disponíveis na Ovi Loja, apenas estatísticas de aparelhos e números enormes de downloads (2,7 milhões por dia, 135 telefones compatíveis, 2,6 downloads por visita, em dados de outubro). Em uma observação rápida, a quantidade de aplicativos aumentou bastante, com diversos apps em versão “lite” e muitas opções de besteirol-para-instalar-no-telefone (um hit nos concorrentes, os aplicativos de peido estão presentes, sim, na Ovi Loja. Talvez um sinal de que a plataforma “pegou”, certo?).

Uma observação: apesar de a Ovi Loja ter muitos games, temas, sons e alguns utilitários básicos pro dia-a-dia (Foursquare, Nimbuzz etc), a Nokia ainda esbarra numa falta de opções do mundo das empresas indo pro mundo mobile. No iOS e Android, é comum achar aplicativos de companhias aéreas, bancos, serviços. Não há nada por ali “comercial” (fora os guias Lonely Planet). Não existem revistas (ou apps com resumos via RSS de revistas, jornais etc), não dá para fazer check-in no avião por ali, nada de checar o saldo bancário. Nokia, acorde, por favor.

Vale lembrar que a Ovi Loja continua solitária no quesito “só tenho apps gratuitas” no mercado brasileiro (Android e iOS – mesmo que com limitações – não têm essas barreiras). Ainda aguardamos o anúncio oficial da cobrança via operadora. Nada mais frustrante do que não poder jogar Angry Birds completo ligado via HDMI na TV grande de casa (quer dizer, tem sim: a mensagem “este conteúdo não está disponível para sua região”).

O Symbianˆ3, aqui, pelo menos aprendeu a não questionar qual conexão usar (no navegador e no cliente de e-mail, ao menos). Identificou uma rede automática, bingo, vai lá e baixa/navega/checa coisas. Dá para desativar o Wi-Fi via widget (em três passos, Symbian-style) – minha versão de testes estava com um bug (relatado à Nokia) que ligava automaticamente em certos momentos à rede sem fios, mesmo com a opção desativada. Nem todos apps aprenderam isso ainda, mas acredito também ser uma questão de tempo. E a Nokia também não resolveu ainda a questão da atualização de aplicativos automatizada na Ovi Loja.

5) Gerenciamento de bateria

O N8 faz de um jeito simples e direto algo que os smartphones, no geral, não aprenderam ainda: gerenciamento de bateria decente. Um toque no ícone da bateria, no topo da tela, permite ativar um modo econômico, que reduz o brilho da tela, deixa o Wi-Fi ativo (que se conecta apenas se você quiser) e mantém o tráfego de dados apenas em EDGE. Quer 3G? Volte pro modo normal. Nesse modo, após um dia inteiro de uso, com internet e câmera, cheguei ao fim do dia com 40% da carga – versus 20% no modo “normal”.

À primeira vista, quando tirei o N8 da caixa, achei estranha uma escolha: o N8 tem uma porta miniUSB (hoje padrão de carregadores, exceto iPhone) e um carregador convencional (AC-15). Tem lógica: o USB pode ser usado para conectar um pen drive com fotos, documentos, músicas e vídeos (e reproduzi-los via HDMI na TV grande da sala) – e o carregador segura a onda e não deixa a bateria descarregar.

A opção da bateria interna é algo novo para um Nokia. Segue o modo iPhone de design, e ao meu ver, só deixa o aparelho mais suscetível a quebras se cair no chão (fala aqui a pessoa que sempre tem telefones com suas bordas lascadas…). Lembre que, em caso de quedas, a primeira coisa a sair é a tampa, seguida pela bateria, numa espécie de trava de segurança. Não derrubei o N8, pelo menos. E odeio capinhas!

6) Câmera

A estranha saliência na parte traseira do N8 se deve à incrível câmera com lentes Carl Zeiss. Se você procura um excelente telefone com câmera, o N8 é o seu aparelho.

Doze megapixels de resolução, flash Xenon que não estoura o objeto, vídeos impressionantes em 720p, macro que consegue diferenciar planos e criar desfoques à frente ou atrás da cena. Veja as fotos em um set especial no Flickr, que estou atualizando conforme uso o aparelho. O software da câmera continua com o flash sempre ativado, mas aí vale o truque: se não que usar o flash, desative e alterne a tarefa no N8 (assim, na hora do clique, o flash continua inativo).

A mesma cena, feita com dois aparelhos ao mesmo tempo:
no N8:

e no iPhone 4:

7) Multimídia + música

Outra surpresa interessante do N8 é seu (não divulgado) suporte a vídeos. Roda vídeos em MPEG4 (padrão da câmera) e, olha só, AVI e MKV (720p apenas) sem conversão, sem engasgo, sem lentidão.

Um dos acessórios na caixa é o cabo miniHDMI, que conecta o aparelho a um cabo HDMI convencional e transforma sua TV com um novo mundo de conteúdo que roda direto do N8. Falta ainda um plugin (ou aplicativo) que leve legendas (.SRT) ao N8 (algo que o N900 faz com o pé nas costas). No modo mais radical, dá pra conectar um pen drive (via extensor microUSB, também na caixa) e assistir os vídeos dali mesmo.

O N8 vem ainda com seis meses de acesso gratuito e ilimitado aos downloads da Ovi Music (antigo Comes With Music). Música de graça (ainda que com algum DRM), eu quero. O music player da Nokia continua a ser o mais completo, e agora “se inspirou” numa interface estilo “Cover Flow” que funciona na horizontal e vertical do player para navegar entre as capinhas dos discos. A qualidade do som, por sinal, é muito boa, digna do velho e bom N91 (alguém lembra?).

Criar playlists é rápido, e o N8 tem um rádio FM integrado, pra quem gosta de FM em um celular.

E, como já é comum entre os aparelhos top da Nokia, o N8 vem com incríveis fones in-ear (meus favoritos) com controle remoto.

8 – Design e outros bichos

A chegada do Android fez um estrago na vida de todo mundo: não conheço uma pessoa que tenha Android e seja feliz com sua agenda de contatos. Se no “velho mundo” dos telefones só um número e nome importavam, no “novo mundo” dos internet phones, telefone, nome, e-mail, rede social e messenger importam.

O Gmail no Android (e seus contatos) levam todo mundo (de endereços inúteis de listas a importantes vCards completos da sua fonte em telecom, por exemplo) pro telefone. E minha agenda enlouqueceu. Gravar fones no SIM card? Esqueça, não cabe mais. Minha solução é pouco ortodoxa: deixar fones essenciais apenas na agenda, e o resto fica no Facebook e no próprio Gmail.

O N8, ao menos, sincroniza dados com iSync do Mac e com Outlook no PC. A velha solução de sincronizar Google via servidor Exchange não funciona mais, e o iSync pra mim quebra um bom galho para o calendário e compromissos. Existe a opção de sincronizar nos serviços Ovi da Nokia, mas ainda não existe um modo de ligar Google ao Ovi e vice-versa (o que seria uma solução ideal).

O design do N8 segue a linha quadradona comum aos aparelhos da Nokia: ao ver um, você sabe que foi feito pela marca (não se pode dizer o mesmo de certos Androids que, bem, lembram bastante o iPhone, num desenho “sabonete” padrão).

9) Conclusões

O N8 tem o hardware perfeito com o software nem tanto. Em um mundo ideal, o N8 rodaria Maemo ou MeeGo e aí sim seria um smartphone completo para concorrer e conseguir roubar o crescente mercado do iPhone e Androids.

A Nokia estima vender 50 milhões de aparelhos com Symbianˆ3 em um futuro próximo, o que não é um número pequeno, e diz que a demanda pela pré-venda do N8 em todo o mundo foi bastante alta. No Brasil, o aparelho chega com um preço bastante camarada, o que pode gerar boas promoções relacionadas ao final de ano nas operadoras. Pelo preço desbloqueado de R$ 1.499, é o menor valor de um aparelho topo de linha praticado pela Nokia em um lançamento (o N97 saía por R$ 2.399, para ficar em um exemplo).

Se você já está acostumado com um Symbian e está acostumado a lidar com as pequenas intempéries do sistema operacional, o N8 é uma aposta certa. Entretanto, se você procura facilidade de uso e já está acostumado o modo básico e simples que Android ou iPhone têm em seus sistemas, dificilmente vai gostar do N8. Repito: com Maemo ou até mesmo MeeGo, o N8 seria o smartphone perfeito. Infelizmente, teremos que esperar até 2011 para ver isso acontecer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s