Naquela estrada,naquela mesa…


Pela “ordem natural das coisas” o destaque de hoje deveria ser o Dia dos Pais, que vamos comemorar amanhã. Nada mais justo que reconhecer a importância dessa figura familiar, homenageá-la, expressar nossa gratidão e alegria por todos os homens que exercem papel tão especial. No entanto… me perdoem a melancolia, a sombra, onde deveria haver luz, mas o que me vem a mente é a imagem de um pai de três filhas de 13, 11 e 10 anos de idade que, amanhã, não poderá comemorar o seu dia.

No último sábado, esse pai perdeu a vida na BR 381, no fatídico trecho de estrada entre BH e Caeté, conhecido como rodovia da Morte. Ramon Marinho da Silva, completaria 45 anos na última quarta-feira, dia 04 de agosto. Ele era muito conhecido no meio empresarial do Vale do Aço, e herdou o tino comercial do pai, Aniceto Vieira da Silva, o Senhor “Sete”, como é chamado. E o que é mais triste: Foi o segundo filho que o senhor “Sete” enterrou vitimado em acidente na BR-381. O outro, Roger Marinho da Silva, que tinha 24 anos na época, morreu em 1994.

Quantos outros pais, filhos e mães, quantas famílias inteiras já tiverem interrompidas ali, belas histórias de vida? Aqui na Itatiaia, muitas vezes nossos repórteres tiveram que cobrir tragédias recorrentes, previsíveis e quase podemos afirmar, premeditadas. É bom lembrar que estamos em ano de eleições. Quantos candidatos vão fazer discursos prometendo “medidas urgentes” para acabar com essa fábrica de acidentes e de mortes? Muito discurso e nenhuma ação…

Desculpem, caros ouvintes, mas o destaque hoje vai para essa tristeza previsível, premeditada, que nem sequer se esconde, é óbvia e está escancarada para quem quiser acompanhar no noticiário ou mesmo se aventurar nas curvas da BR 381.

É preciso que esse genocídio, ( a morte de tantas pessoas) seja mais que uma notícia. Os mortos não devem se tornar apenas números em estatísticas que mofam em gavetas empoeiradas pelo descaso e pela irresponsabilidade de quem já devia, há muito, ter tomado as providências necessárias e efetivas.

O problema é que, quem poderia tomar as tais providências, só conhece a rodovia da morte pelo noticiário. Só passa por lá de helicóptero ou avião e se, por acaso, ficar preso em algum engarrafamento, terá batedores de sirene aberta para lhe abrir passagem. Uma lástima nesse país de regalias e de corrupção.

Somente no final de junho, deste ano, em menos de 72 horas, foram três acidentes com o saldo trágico de 17 mortes. Isso mesmo, 17 mortes em menos de 3 dias. E, um mês depois, no dia 18 de julho, duas pessoas morreram carbonizadas depois que um carro e um caminhão bateram de frente na altura do município de São Gonçalo do Rio Abaixo, na Região Central de nosso Estado.

E agora, no retorno das férias, milhares de famílias ficaram presas nas duas pontas da 381. A situação era a mesma tanto para quem vinha de São Paulo, do Sul de Minas, dos condomínios ou sítios da região de Itaguara, Igarapé, quanto para quem chegava das praias “mineiras” do Espírito Santo. A interrupção foi total. Incompetência com uma precisão digna de primeiro mundo, executada por ‘autoridades’ do terceiro.

Especialistas afirmam que as colisões frontais após ultrapassagens, agravadas pela quantidade de curvas sinuosas e a presença de muitos caminhões são os principais tipos de acidentes na rodovia. Mas, com orçamento de R$ 2,5 bilhões, a duplicação dos 310 quilômetros entre a capital e Governador Valadares deve começar somente no primeiro semestre de 2011 e estar concluída em quatro anos, segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, o Dnit. A verba virá do Programa de Aceleração do Crescimento PAC 2.

Enquanto isso, quem assumirá as responsabilidades por tanto sofrimento anônimo? Já que as “medidas urgentes” não vem, para não ficar só na queixa, na denúncia, na cobrança, aqui vai uma sugestão que não depende do PAC, nem de orçamento gigantesco: Que tal baixar uma lei que regulamente o trânsito de caminhões pesados nos dias de início e fim de feriadões ou períodos de férias escolares?

Difícil? Penso que não. Poderia funcionar assim:
Dia 31 de julho: de 7 da manhã às 7 da noite, nas estradas federais, ou em vias de acesso a localidades de interesse turístico, só poderiam transitar veículos leves, ônibus e vans.
Carretas, caminhões ficariam proibidos de circular nesses dias e horários. Mas e as cargas essenciais, as perecíveis? Sabendo antes, é possível prever, planejar, se organizar. O que é combinado não é caro e nem custa a vida alheia… Teríamos mais segurança, mais fluxo turístico, mais tranquilidade para ir e vir.

Afinal, são mais de 500 mortes em 8 mil acidentes que acontecem todos os anos na rodovia da Morte, um número que deveria servir para colocar o assunto na categoria de segurança nacional. Infelizmente, para o noticiário é mais uma manchete. Para as autoridades, mais um número nas estatísticas. Para a família de Ramon Marinho da Silva, uma perda irreparável. Amanhã, ele não estará à mesa com suas filhas, para comemorar o Dia dos Pais.

Texto de selma Sueli

Tanto absurdo, até quando?

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