‘Será que a culpa é mesmo da mídia?’


Texto de Selma Sueli Silva

‘Será que a culpa é mesmo da mídia?’

Há algum tempo, toda vez que se ouvia um discurso inflamado sobre um acontecimento qualquer que chocasse ou prejudicasse a sociedade, o arremate da conversa era pra lá de conhecido: a culpa é do governo. E não tinha partido ou nome – se era governo, era culpado. Repetia-se entre nós o dito latino americano: “Se hay gobierno, soy contra! Se no hay, tambien soy!”

Mas hoje um novo culpado está na mira. Não que o governo esteja certo, isento, inocente. Mas um novo culpado caiu no senso crítico afiado do povo e virou a bola da vez. Agora, a mídia é a culpada.

Senão, vejamos: nesta semana, um assunto foi destaque, e acabou colocando a mídia na berlinda: o casal Nardoni é julgado e o advogado de defesa diz em tumultuadas entrevistas que eles foram previamente condenados… por culpa da mídia.
Na verdade, estamos nos especializando em terceirizar a culpa, o que nem é novidade pois, como dizia o filósofo Sartre: “o inferno são os outros”.

Mas, cá entre nós, culpar a mídia pelos excessos de nossa sociedade é ser simplista e acomodado. Se a balança não pendesse para a culpa dos Nardoni eles não estariam presos há tanto tempo. Afinal, eles têm recursos, o que lhes garante bons advogados, e se, somado a isso, fossem inocentes… a história seria outra. De fato, eles até podem ser inocentes do crime de assassinato. Mas seriam totalmente inocentes na forma como tudo aconteceu? Certo parece que eles tentaram, desde o princípio, esconder os fatos, o que deixou para a polícia muita coisa a ser apurada e, para a mídia, muita coisa a ser noticiada. É o papel que cabe a cada instituição.
Acreditar no poder de influência da mídia sobre a opinião pública e, por via de consequência, sobre os jurados é uma coisa. Agora, acreditar que o trabalho de investigação policial, as estratégias da defesa e da acusação, a avaliação do júri, além da atuação do magistrado, não tem peso algum, ora, convenhamos, isso já é um devaneio…

É honesto reconhecer que alguns setores da imprensa optam, sim, pelo sensacionalismo. Infelizmente, esse tipo de jornalismo se espalhou pelo mundo todo, e não apenas por aqui, no nosso Brasil. Mas, separar o joio do trigo é o mínimo que se espera de cabeças pensantes. Por isso, investir na educação é tão fundamental. Educação leva a apurar nosso senso crítico. Caso contrário, seremos uma massa de vaquinhas de presépio ao sabor dos ventos que a mídia nos assopra. E, verdade seja dita, a mídia que está na boca do povo é a mesma mídia que produz documentários incríveis, que dá voz aos diversos setores da sociedade, que, por dever de ofício, ouve os dois lados de uma questão.

E aí, meus caros, entra a platéia que decide a que programa aplaudir, a que reportagem escolher, o que terá maior audiência. Mas na hora que os reflexos das nossas escolhas retornam a nós, o “inferno são os outros”, ou a culpa é da mídia. O jornalismo que praticamos não assume culpa. Assume responsabilidade. E a Itatiaia, ao dar notícia de tudo, contribui para que tudo que é notícia chegue ao nosso ouvinte, ajudando a formar opinião, a formar o cidadão.
E, assim, podemos traduzir e atualizar o dito popular:
“Se há mediocridade, somos contra!
Se há sensacionalismo, somos contra!
Mas, principalmente, se há censura, SOMOS CONTRA”!